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O Segundo Vigilante: o Prumo, a Beleza e a formação do Companheiro no REAA

Introdução

Entre os cargos que compõem a estrutura de uma Loja Maçônica, o de Segundo Vigilante talvez seja um dos que mais facilmente pode ser reduzido a uma função meramente administrativa ou ritualística. À primeira vista, trata-se simplesmente do oficial que ocupa a Coluna do Sul, conduz os trabalhos de sua coluna, transmite ou recebe determinadas comunicações e participa da condução ritualística da sessão. Entretanto, quando observamos o simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) com maior atenção, percebemos que o Segundo Vigilante ocupa uma posição muito mais profunda.

Ele está associado à Beleza, ao Sul, ao meio-dia, à Coluna Coríntia, ao Companheiro Maçom, ao Prumo e, dentro de determinadas interpretações da abóbada celeste, à Estrela Flamejante ou Stella Pitagoris. Não são elementos independentes. Eles formam uma verdadeira rede simbólica que permite compreender a razão pela qual esse oficial ocupa precisamente o lugar que ocupa dentro do Templo. A própria estrutura das três Luzes principais da Loja — Venerável Mestre, Primeiro Vigilante e Segundo Vigilante — estabelece uma relação entre Sabedoria, Força e Beleza. O Venerável Mestre concebe e dirige; o Primeiro Vigilante sustenta e fortalece; o Segundo Vigilante proporciona acabamento, harmonia e beleza à obra. Essa interpretação é tradicionalmente associada às três grandes colunas simbólicas do Templo: Jônica, Dórica e Coríntia. Fontes maçônicas brasileiras que descrevem os cargos do REAA identificam justamente o Segundo Vigilante com a Coluna Coríntia e com a Beleza.

Mas há algo ainda mais interessante: o Segundo Vigilante não é apenas aquele que “cuida” dos Companheiros. Ele representa, simbolicamente, uma etapa de desenvolvimento. Se o Aprendiz está relacionado ao primeiro contato consciente com a obra, o Companheiro representa o momento em que o homem começa a compreender melhor os instrumentos, os caminhos e as proporções da construção. Por isso, o Segundo Vigilante ocupa uma posição diretamente relacionada à formação, ao aperfeiçoamento e à transformação do Obreiro.

Sua joia — o Prumo — oferece a chave para compreender essa missão.

O prumo não diz apenas “seja reto”. Ele apresenta uma pergunta muito mais profunda: o que significa permanecer vertical em um mundo cheio de forças que procuram nos inclinar?

É essa questão que torna o cargo do Segundo Vigilante particularmente rico do ponto de vista simbólico.

A função do Segundo Vigilante

No REAA, o Segundo Vigilante é uma das três principais dignidades da Loja e ocupa seu lugar no Sul, tradicionalmente relacionado ao período de maior presença do Sol no céu. Sua posição está associada ao momento de maior luminosidade do dia e, por consequência simbólica, à Beleza. Sua função não se limita à condução ritualística. O Segundo Vigilante possui uma responsabilidade específica sobre a formação dos Obreiros que estão sob sua orientação, especialmente os Companheiros, conforme a organização tradicional do REAA.

A documentação maçônica brasileira que descreve os cargos do Rito identifica o Segundo Vigilante como responsável pela direção de sua Coluna, pela transmissão das ordens, pela solicitação da palavra para os irmãos de sua Coluna, pela instrução e pela solicitação de aumento de salário para os Companheiros. Isso é importante porque demonstra que o cargo não deve ser entendido apenas como uma posição de autoridade. O Vigilante é, antes de tudo, um orientador. Ele observa o desenvolvimento dos Obreiros, acompanha sua participação, transmite instruções, estimula o estudo e auxilia o processo pelo qual o Maçom deixa gradualmente de ser apenas um receptor de ensinamentos para tornar-se alguém capaz de compreender, interpretar e aplicar aquilo que aprendeu.

Essa função se torna ainda mais significativa quando observamos a relação tradicional entre os Vigilantes e os graus.

O Primeiro Vigilante está relacionado à Coluna do Norte e ao trabalho do Aprendiz; o Segundo Vigilante está relacionado à Coluna do Sul e ao Companheiro. Portanto, a passagem de uma Coluna para outra também pode ser compreendida como uma passagem simbólica entre diferentes etapas da formação maçônica. O Segundo Vigilante encontra-se, assim, em uma posição intermediária. Ele não é o princípio da jornada, mas também não representa a conclusão dela.

É o meio do caminho.

E talvez seja justamente por isso que o seu simbolismo esteja tão profundamente relacionado à verticalidade.

A Joia do Segundo Vigilante: o Prumo

A joia do Segundo Vigilante é o Prumo, também chamado de perpendicular. Documentos de paramentos do REAA utilizados por Obediências maçônicas brasileiras apresentam expressamente o Prumo como a joia correspondente ao Segundo Vigilante. O instrumento é extremamente simples: consiste essencialmente em um peso suspenso por um fio. Quando submetido à gravidade, o peso estabelece uma linha vertical precisa. Na construção, essa referência permite verificar se uma parede, coluna ou estrutura está corretamente alinhada.

A simplicidade do instrumento é justamente aquilo que o torna poderoso como símbolo:

  • O prumo não precisa de opiniões.
  • Não precisa de argumentos.
  • Não precisa ser convencido.
  • A gravidade estabelece sua referência.

Se a parede está inclinada, o prumo revela a inclinação. Se está vertical, o prumo confirma a verticalidade.

Transferido para o campo moral, o instrumento apresenta uma das mais antigas metáforas da construção: a necessidade de verificar constantemente se aquilo que estamos edificando permanece de pé sobre uma linha correta.

Por isso, a joia do Segundo Vigilante pode ser compreendida como um convite à retidão de conduta. Essa associação também aparece na tradição maçônica anglófona, na qual o Junior Warden possui igualmente o Prumo como joia e este é relacionado à conduta reta e à necessidade de equilíbrio entre prazer, temperança e dever. Mas existe uma diferença importante entre simplesmente dizer que o prumo representa “retidão” e compreender o que essa retidão significa. Ser reto não significa ser inflexível.

Uma parede perfeitamente vertical não é uma parede rígida no sentido moral. A verticalidade simboliza, antes, a existência de um eixo.

O Maçom precisa possuir um eixo interior.

Ele pode aprender, mudar de opinião, reconhecer erros, rever conceitos e aperfeiçoar sua compreensão. Tudo isso é movimento. Porém, esse movimento não pode significar a perda completa de seus princípios. O prumo representa justamente esse eixo. Ele pergunta ao homem: Depois de todas as influências externas, ainda sei onde está minha vertical?

Essa pergunta torna a joia do Segundo Vigilante muito mais profunda do que uma simples referência à honestidade.

O Prumo e a construção interior

O simbolismo maçônico frequentemente transforma instrumentos da construção material em instrumentos de construção moral:

  • O esquadro verifica o ângulo.
  • O nível verifica a horizontalidade.
  • O prumo verifica a verticalidade.

Quando observamos esses instrumentos em conjunto, encontramos uma espécie de linguagem geométrica aplicada ao comportamento humano. O esquadro pergunta se nossas ações estão corretamente ajustadas. O nível lembra que ninguém deve se considerar superior aos demais. O prumo pergunta se estamos permanecendo de pé.

Essa última questão é particularmente apropriada ao Segundo Vigilante.

O Companheiro já passou pela primeira experiência da construção. Ele não é mais apenas aquele que recebe a ferramenta e aprende a utilizá-la. Agora precisa compreender a própria obra:

  • É possível possuir conhecimento e ainda assim não possuir caráter.
  • É possível conhecer os símbolos e não compreender seu significado.
  • É possível falar sobre virtude e não praticá-la.
  • É possível conhecer perfeitamente a geometria de uma construção e, ainda assim, erguer uma parede torta.

O Prumo lembra ao Companheiro que conhecimento sem retidão não produz uma obra perfeita. A verdadeira construção maçônica não acontece apenas no Templo físico. Ela acontece no próprio homem.

O Segundo Vigilante como educador

Talvez uma das funções mais importantes desse cargo seja justamente aquela que muitas vezes recebe menos atenção: formar pessoas. Um Vigilante que apenas conhece a ritualística, mas não conhece os irmãos de sua Coluna, está exercendo apenas uma parte de sua função. O verdadeiro Vigilante precisa perceber quem está estudando, quem está tendo dificuldade, quem está se afastando, quem demonstra interesse, quem precisa de orientação e quem possui conhecimento que poderia ser compartilhado com os demais. Ele não é simplesmente um fiscal.

É um mentor.

Sua autoridade não deveria nascer do cargo em si, mas da capacidade de orientar. Isso exige conhecimento maçônico, mas também exige capacidade humana. O Segundo Vigilante precisa saber quando ensinar, quando perguntar, quando corrigir e, principalmente, quando ouvir. Um Companheiro que faz uma pergunta difícil não necessariamente está desafiando a autoridade do Vigilante. Talvez esteja exatamente demonstrando que o processo de aprendizado está funcionando. Da mesma maneira, um irmão que interpreta um símbolo de maneira diferente não deve ser automaticamente tratado como alguém que “não entendeu”.

A Maçonaria trabalha com símbolos justamente porque eles possuem capacidade de produzir diferentes níveis de reflexão.

O papel do Vigilante é ajudar o Obreiro a aprofundar sua interpretação, separando aquilo que é conhecimento ritualístico, tradição, interpretação simbólica e opinião pessoal. Essa distinção é fundamental para evitar que a instrução maçônica se transforme em simples reprodução de frases decoradas.

O Segundo Vigilantena Abóbada Celeste

A representação do Segundo Vigilante na Abóbada Celeste é uma das partes mais interessantes — e também uma das que exige maior cuidado na interpretação. Em algumas tradições e estudos relacionados ao REAA, o Segundo Vigilante é associado à Stella Pitagoris, também chamada de Estrela Pitagórica, Estrela Hominal ou Estrela Flamejante. Estudos sobre a abóbada celeste apresentam essa estrela sobre ou em correspondência com a posição do Segundo Vigilante, enquanto outras interpretações distinguem a Estrela Flamejante do conjunto astronômico propriamente dito da abóbada.

Essa ressalva é importante.

Não existe uniformidade absoluta entre todas as tradições maçônicas, rituais, Obediências e interpretações sobre a disposição da abóbada celeste. Portanto, não é adequado apresentar determinada correspondência como se fosse universal para toda a Maçonaria. Dentro da tradição simbólica do REAA que estabelece essa correspondência, encontramos uma sequência extremamente significativa:

Sol — Venerável Mestre
Lua — Primeiro Vigilante
Estrela Flamejante ou Stella Pitagoris — Segundo Vigilante

  • O Sol está no Oriente.
  • A Lua está associada ao Ocidente.
  • E a Estrela Flamejante encontra-se no Sul, entre os dois.

Essa posição intermediária é carregada de significado.

A Estrela Flamejante é tradicionalmente relacionada ao Companheiro e à ideia do homem que alcança uma condição de maior iluminação e compreensão. Há autores que destacam justamente sua posição intermediária entre Sol e Lua e sua relação com o Segundo Grau. Portanto, a relação entre a Estrela Flamejante e o Segundo Vigilante não deve ser entendida simplesmente como uma correspondência astronômica.

Ela representa uma luz intermediária:

  • O Aprendiz ainda está no início da jornada.
  • O Mestre representa uma etapa de maturidade.
  • O Companheiro encontra-se no caminho entre essas duas condições.

A Estrela colocada no Sul traduz simbolicamente essa posição.

A Estrela Flamejante e o homem iluminado

A Estrela de cinco pontas possui uma longa história simbólica anterior à Maçonaria. No contexto maçônico, porém, ela recebeu interpretações próprias, especialmente relacionadas ao Segundo Grau. Algumas tradições a identificam como a Estrela Pitagórica, relacionando-a ao pensamento pitagórico e à geometria. Estudos sobre o simbolismo do REAA associam sua forma ao homem iluminado e à superação da condição meramente instintiva. Essa leitura é especialmente adequada ao Segundo Vigilante.

Se o Prumo mostra o eixo vertical, a Estrela mostra o homem que ocupa esse eixo. Podemos imaginar uma relação entre ambos:

o Prumo representa a vertical que o homem deve buscar; a Estrela representa o homem que procura tornar-se luminoso nessa vertical.

O Companheiro não é apenas alguém que acumula conhecimentos, ele deve transformar conhecimento em consciência e consciência em comportamento. É nesse ponto que o simbolismo do Segundo Vigilante ultrapassa a simples administração de uma Coluna.

Ele passa a representar a própria formação do homem maçônico.

O Segundo Vigilante e o meio-dia

Existe ainda outro elemento fundamental: o meio-dia.

O Segundo Vigilante encontra-se no Sul, região associada ao momento de maior luminosidade do dia. Na tradição maçônica, isso estabelece uma relação entre sua posição e o Sol em seu ponto de maior altura. A simbologia é particularmente interessante porque o meio-dia é um momento de plena exposição à luz. Não existe a mesma condição de ocultamento encontrada durante a noite, tudo está mais visível.

Aplicado ao homem, isso pode representar a necessidade de examinar aquilo que fazemos quando estamos plenamente expostos, o verdadeiro teste da retidão não acontece apenas quando alguém nos observa. A verdadeira verticalidade aparece quando não existe ninguém para fiscalizar, é justamente por isso que o Prumo é uma joia tão apropriada. Ele não pergunta se o homem parece reto: ele verifica se ele é reto.

Conclusão

O cargo de Segundo Vigilante é muito mais profundo do que sua posição administrativa poderia sugerir, ele é o oficial do Sul, associado ao meio-dia, à Beleza, à Coluna Coríntia, ao Companheiro, ao Prumo e, em determinadas tradições do REAA, à Estrela Flamejante ou Stella Pitagoris.

Todos esses elementos parecem apontar para uma mesma ideia: o aperfeiçoamento do homem por meio do conhecimento, da disciplina e da busca pela harmonia interior. O Prumo representa a verticalidade, a Beleza representa a harmonia.

O Companheiro representa aquele que está em processo de aperfeiçoamento. A Estrela representa a luz que pode ser alcançada pelo homem que procura transcender sua condição inicial e o Segundo Vigilante é aquele que acompanha esse processo.

Por isso, talvez a melhor maneira de compreender esse cargo seja deixar de vê-lo simplesmente como o “terceiro homem da hierarquia da Loja” e passar a entendê-lo como uma figura de formação. Seu verdadeiro trabalho não termina quando a sessão é encerrada, ele continua quando o Companheiro volta para sua vida cotidiana. É ali, longe das colunas do Templo, que o Prumo precisa realmente funcionar.

Porque não existe grande mérito em permanecer reto dentro de um Templo perfeitamente organizado se, ao sair dele, permitimos que nossas paixões, interesses, vaidades e preconceitos nos inclinem. A verdadeira obra do Segundo Vigilante começa quando o irmão compreende que a verticalidade não é uma posição física. É uma condição moral.

E talvez seja essa a grande lição escondida na joia do cargo: o homem pode ser influenciado por todas as forças que o cercam, mas precisa conservar dentro de si uma linha de referência capaz de fazê-lo retornar à sua verdadeira vertical.

  • O Prumo não impede que o homem se incline.
  • Ele apenas mostra quando isso acontece.
  • Cabe ao homem, então, corrigir sua posição.
  • É exatamente assim que se constrói.
  • Pedra após pedra.
  • Erro após erro.
  • Aprendizado após aprendizado.

Até que aquilo que antes era apenas matéria bruta comece, finalmente, a revelar a Beleza que sempre esteve escondida em sua própria forma.

FONTES E REFERÊNCIAS

O PONTO DENTRO DO CÍRCULO. Cargos em Loja no REAA. — Síntese das funções ritualísticas e administrativas do Segundo Vigilante.

MACKEY, Albert Gallatin. An Encyclopedia of Freemasonry and Its Kindred Sciences. — Fonte clássica para o estudo dos símbolos, das Colunas, da Beleza e dos cargos maçônicos.

GUIA DOS TRABALHOS SYMBOLICOS DO RITO ESCOSSEZ ANTIGO E ACEITO. 1874. — Importante fonte ritualística histórica para a relação entre Sabedoria, Força, Beleza e as funções dos Vigilantes.

OFICINA REAA. As Três Luzes da Loja. — Estudo contemporâneo sobre Sabedoria, Força e Beleza e a posição simbólica do Segundo Vigilante.

PEDRO JUK. Lugar dos Vigilantes no REAA. — Estudo sobre a posição dos Vigilantes e as diferenças entre tradições ritualísticas.

PEDRO JUK. Identificação da Estrela. — Discussão específica sobre a Estrela Flamejante e sua relação com a Abóbada Celeste e o Segundo Vigilante.

RODIGUERO, Antonio. A Abóbada Celeste no REAA. — Estudo sobre os astros, cargos e correspondências simbólicas da Abóbada Celeste.

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