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A Maçonaria Moderna na França: entre o Iluminismo e a ruptura com a Inglaterra

A Chegada da Maçonaria à França: Como Paris se Tornou o Berço da Tradição Liberal

A história da maçonaria francesa começa oficialmente em 1725, quando aristocratas britânicos, muitos deles exilados jacobitas, fundaram em Paris a primeira loja especulativa do país. Embora a Inglaterra tenha sido o berço da maçonaria moderna em 1717, foi na França que ela encontrou um terreno fértil para se transformar profundamente. A capital francesa vivia o auge do pré-Iluminismo, dos salões literários, das sociedades filosóficas e de um ambiente intelectual vibrante que discutia política, ciência, religião e ética como nenhum outro lugar da Europa.

Nesse novo cenário, a maçonaria rapidamente deixou de ser apenas um espaço de convivência fraterna, como ocorria em Londres, para se tornar um laboratório filosófico. Nas lojas parisienses, não era raro encontrar enciclopedistas, nobres, militares, cientistas, juristas e literatos, todos interessados em debater temas como liberdade, igualdade, tolerância e reforma social. A Ordem se tornava, progressivamente, uma expressão do espírito que geraria o Iluminismo francês e, posteriormente, influenciaria até a Revolução de 1789.

O Grande Oriente da França (1773): A Emergência de uma Potência Maçônica

O ano de 1773 marca um divisor de águas. A fundação do Grande Oriente da França (GOdF) reorganizou completamente a maçonaria no país, conferindo-lhe estrutura, autoridade e uma identidade própria. Diferentemente da postura inglesa — que valorizava a neutralidade política e o silêncio sobre temas sensíveis —, o GOdF refletia o espírito republicano que começava a pulsar na sociedade.

O Grande Oriente abriu suas portas para o debate político e social, adotou uma postura racionalista e aproximou a Ordem das discussões que moldavam a França pré-revolucionária. Defendeu a liberdade de consciência, a laicidade, o combate ao obscurantismo e a separação entre Igreja e Estado — valores que, mais tarde, se tornariam pilares da própria República Francesa. A maçonaria francesa não foi apenas espectadora desses processos: ela participou ativamente deles, com inúmeros intelectuais e estadistas entre seus membros.

A Ruptura de 1886: O Marco da Maçonaria Liberal

A tensão entre a tradição inglesa e a evolução francesa se tornou irreconciliável em 1886, quando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) rompeu relações com o GOdF. O motivo era claro e simbólico: o Grande Oriente retirou de suas constituições a obrigatoriedade da crença no Grande Arquiteto do Universo.

Para a Inglaterra, a fé em um Deus pessoal era requisito essencial para qualquer maçonaria considerada regular. Para a França, no entanto, a evolução natural da tradição iluminista mostrava que a Ordem deveria abraçar plenamente a liberdade de consciência. Esse gesto não representava ateísmo, mas o compromisso com a inclusão de todos os homens de pensamento livre — crentes, agnósticos ou humanistas laicos.

Essa decisão consolidou dois modelos que permanecem até hoje:

  • Maçonaria Regular — inglesa, teísta, tradicional.
  • Maçonaria Liberal (ou adogmática) — francesa, laica, racionalista e aberta ao debate filosófico e político.

A partir do final do século XIX, a França se tornou a principal referência mundial do modelo liberal.

A França e os Graus Filosóficos: O Nascimento do REAA Moderno

Durante o século XVIII e XIX, Paris se tornou um laboratório ritualístico. A explosão de sociedades esotéricas, movimentos rosacrucianos, altos graus escoceses e ordens herméticas transformou a França no maior centro maçônico iniciático do mundo. Foi nesse contexto que os graus filosóficos ganharam corpo.

O Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), embora tenha raízes em tradições escocesas e inglesas, encontrou solo fértil na França para sua organização definitiva. Em 1804, o Supremo Conselho da França foi criado, e o REAA se consolidou como um sistema completo de 33 graus, dotado de coerência, simbolismo e estrutura.

A França, à época potência cultural e política, irradiou sua influência para a América Latina, Mediterrâneo, Caribe e algumas regiões da Europa, estabelecendo o REAA como um dos ritos mais praticados do planeta.

A ritualística simbólica (graus 1-3) permanecia alinhada ao modelo das lojas, mas o sistema superior, composto pelos graus filosóficos, floresceu com força nas instituições francesas. Mais do que um rito, o REAA tornou-se uma escola de pensamento, carregada de referências históricas, místicas e humanistas.

Conclusão: A França como Arquitetura da Maçonaria Moderna

Ao observar a trajetória francesa, torna-se evidente que a França não apenas recebeu a maçonaria especulativa: ela a transformou. Seu papel foi estruturar, expandir e reinterpretar os valores maçônicos à luz do Iluminismo, da ciência, da filosofia e da vida pública.

A linha do tempo é clara:

  • 1725 — a maçonaria chega a Paris e se funde ao ambiente intelectual dos salões.
  • 1773 — nasce o Grande Oriente da França, forte, organizado e politicamente consciente.
  • 1886 — o GOdF rompe com a Inglaterra e define o modelo liberal e adogmático.
  • Século XIX — a França consolida os graus filosóficos e exporta o REAA ao mundo.

Hoje, a França é reconhecida como uma das maiores potências maçônicas do mundo — não pelo número de membros, mas pela profundidade de sua influência filosófica, ritualística e histórica. Seu legado moldou a identidade da maçonaria moderna, ampliando-a para além da religião, da política e das fronteiras nacionais.

Referências:

  • Chevallier, Pierre – Histoire de la Franc-Maçonnerie Française.
  • Dachez, Roger – Histoire de la Franc-maçonnerie française.
  • Jacob, Margaret C. – Living the Enlightenment.
  • Grande Oriente da França – História Oficial.
  • FrWiki – Franc-maçonnerie en France.
  • MS Maçom – A Maçonaria na França: História e Atualidade.

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