Na tradição maçônica, poucas expressões carregam tanta densidade simbólica quanto a orientação ritualística de “se colocar entre colunas” ao apresentar uma ideia, defesa ou trabalho. Esse gesto, aparentemente simples, transcende o ato físico e revela uma dimensão mais profunda do caminho iniciático: é uma atitude espiritual, moral e intelectual.
As colunas, herança simbólica dos antigos templos, representam não apenas Boaz e Jachin, mas também os dois grandes princípios complementares que regem o universo: Força e Estabilidade, Sabedoria e Inteligência, Ação e Contemplação, Rigidez e Flexibilidade. Estão na entrada do Templo porque demarcam a fronteira entre dois mundos — o profano e o iniciado —, e ao mesmo tempo convidam o maçom a entrar num estado de consciência mais elevado.
Assim, quando um Irmão se posiciona entre elas, ele simbolicamente se coloca no ponto de equilíbrio. Nada se apresenta de forma leviana nesse espaço; cada palavra ali exposta é oferecida à Luz, submetida ao crivo dos princípios mais nobres da Ordem. É como se o Irmão dissesse:
“Meu pensamento é digno de ser examinado sob os alicerces da Verdade e da Razão.”
Esse local do Templo também remete ao conceito de passagem. Entre as colunas, inicia-se o processo de transformação interior. Quando o maçom atravessa esse espaço, ele deixa para trás suas imperfeições e limitações momentâneas, aproximando-se da construção ideal. Ao apresentar-se ali voluntariamente, ele demonstra humildade, disposição ao ensino e transparência. É uma confissão silenciosa de que está pronto para ser lapidado.
A posição entre colunas transforma-se, portanto, em uma metáfora da vida iniciática: expor-se para crescer. É o ponto no qual as certezas são confrontadas, as intenções são purificadas, e as ideias são moldadas pelo fogo do debate fraterno. O Irmão que se coloca entre elas assume responsabilidade por suas palavras, mas também permite que a sabedoria coletiva lhe refine os ângulos ainda rudes.
E há ainda um simbolismo mais profundo: o centro. Entre as colunas está o espaço central da travessia, onde o equilíbrio é possível. Estar ali é buscar a justa medida, o ponto onde opostos se harmonizam. Na vida cotidiana, isso se traduz no esforço constante de conciliar razão e emoção, disciplina e liberdade, fé e prática. É ali que o maçom se recorda de que a verdadeira construção começa pelo próprio interior.
Por tudo isso, “se colocar entre colunas” não é apenas um gesto ritual. É um compromisso com a verdade, um ato de coragem moral e um momento de profundo significado espiritual. Representa a disposição de apresentar algo que nasce do trabalho interno, mas que agora deve ser iluminado pela luz do coletivo. É, em suma, posicionar-se diante dos pilares da tradição, com humildade e grandeza, para que a obra — seja ela uma palavra, uma reflexão ou um ato — seja digna do Templo.
Referências Bibliográficas
- Albert G. Mackey – Encyclopedia of Freemasonry — Verbete “Pillars (Boaz and Jachin)”.
- Jules Boucher – A Simbólica Maçônica.
- Oswald Wirth – O Livro do Aprendiz, O Livro do Companheiro, O Livro do Mestre.
- Rizzardo da Camino – Simbologia Maçônica.
- John Yarker – The Arcane Schools.
- Rituais do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), Rito Adonhiramita e Rito de York — Seções sobre símbolos do Templo e posições ritualísticas.
- Elias Ashmole – Anotações e textos históricos sobre simbologia templária e iniciática.
