Resenha de A Constituição de Anderson (1723) – Uma Análise Profunda
A Constituição de Anderson, publicada originalmente em 1723 por James Anderson, é o documento fundamental que marcou a transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa moderna. Sua publicação, sob a égide da Grande Loja de Londres, é considerada o marco zero da Maçonaria como a conhecemos hoje. Longe de ser um mero texto histórico, é um compêndio de regras e princípios que consolidou a estrutura, a filosofia e a universalidade da Ordem. A edição traduzida e comentada por Kennyo Ismail é de particular importância, pois oferece ao leitor de língua portuguesa não apenas o texto integral, mas também o contexto histórico e as notas essenciais para a compreensão de um documento que é, ao mesmo tempo, histórico e doutrinário.
Ficha Técnica e Dados Essenciais
| Item | Detalhe |
| Título Original | The Constitutions of the Free-Masons |
| Autor | James Anderson |
| Ano de Publicação Original | 1723 |
| Tradução e Comentários | Kennyo Ismail |
| Gênero | História, Doutrina Maçônica, Documento Histórico |
| Edição | Comemorativa de 300 Anos (em algumas publicações) |
A Trama: O Que Você Precisa Saber Antes de Ler
“A Constituição de Anderson” não é um livro de narrativa, mas sim um conjunto de documentos que estabelecem as bases da Maçonaria moderna. A obra é dividida em três partes principais:
1.A História: Uma longa e, por vezes, mitológica, história da Maçonaria, traçando suas origens desde Adão até a fundação da Grande Loja.
2.Os Encargos de um Maçom (Charges): O coração doutrinário do livro, que estabelece as regras de conduta, moralidade, religião, política e a relação entre os maçons.
3.Regulamentos Gerais: As regras práticas para a organização e o funcionamento das Lojas e da Grande Loja.
O Conflito Central
O conflito que a Constituição de 1723 resolve é a necessidade de unificar e modernizar as diversas práticas e tradições das antigas Lojas de Maçons Operativos. A Maçonaria Especulativa precisava de um código que fosse universal, tolerante e que refletisse os ideais do Iluminismo, permitindo a aceitação de homens de diferentes credos e classes sociais. O documento de Anderson é a solução para essa busca por universalidade e ordem.
Análise da Tradução e Comentários: A Contribuição de Kennyo Ismail
A tradução de Kennyo Ismail é um ponto crucial desta edição. Lidar com um texto do século XVIII, repleto de termos e contextos específicos, exige precisão e conhecimento profundo.
Kennyo Ismail: O Guia Essencial
A principal contribuição de Ismail reside nas notas e comentários. Ele não apenas traduz o texto, mas o contextualiza historicamente, filosófica e maçonicamente. Para o leitor leigo ou mesmo para o maçom que busca aprofundamento, os comentários de Ismail são inestimáveis, pois esclarecem as nuances do texto original e desmistificam interpretações errôneas que surgiram ao longo dos séculos. A análise da Ahiman Rezon (outra constituição maçônica) por Ismail, mencionada em algumas fontes, demonstra sua autoridade no tema.
Estilo e Narrativa: A Voz de James Anderson
O estilo de Anderson é formal e legalista, como convém a um documento constitucional. A seção histórica é escrita com um tom épico e apologético, buscando dar legitimidade e antiguidade à Ordem.
A parte mais influente e de maior interesse para o leitor geral são os Encargos de um Maçom. O primeiro encargo, sobre Deus e a Religião, é um marco de tolerância, estabelecendo que o maçom deve aderir àquela “Religião em que todos os homens concordam”, permitindo a convivência de diferentes credos, desde que sejam “homens bons e leais, ou homens de Honra e Honestidade”. Este é o ponto de virada da Maçonaria para a universalidade.
Temas e Mensagens: O Que o Livro Realmente Diz
A Constituição de Anderson é rica em temas que refletem o espírito do Iluminismo.
O Tema da Universalidade e Tolerância
O documento estabelece a Maçonaria como um centro de união e um meio de conciliar a amizade entre pessoas que, de outra forma, permaneceriam em perpétua distância. A ênfase na moralidade, na lealdade ao Estado e na tolerância religiosa são as mensagens mais fortes e duradouras da obra.
A Relevância para o Leitor Moderno
A Constituição de Anderson, especialmente na tradução comentada, é relevante para entender a origem de muitos conceitos de fraternidade e ética cívica. O documento é um testemunho de como um código de conduta pode transcender barreiras religiosas e políticas, focando em valores humanos universais. Para quem estuda história das sociedades secretas ou a influência do Iluminismo, é uma fonte primária indispensável.
Crítica Pessoal e O Final (Alerta de Spoilers!)
AVISO DE SPOILER: A partir deste ponto, a resenha contém detalhes cruciais sobre a interpretação e o impacto do documento.
Minha crítica pessoal ao texto original de 1723 reside na seção histórica. Ela é claramente uma construção mitológica, com pouca base factual. No entanto, a genialidade do documento reside em sua capacidade de codificação. Anderson e Desaguliers conseguiram destilar séculos de tradição em um conjunto de regras simples e aplicáveis.
O “final” do livro, com os Regulamentos Gerais, mostra a preocupação prática em criar uma organização funcional. O documento não é apenas filosófico, mas também um manual de governança. A edição de Kennyo Ismail é essencialmente a chave para desvendar o texto, transformando um documento árido em uma leitura acessível e profundamente informativa. O leitor percebe que a verdadeira “trama” é a fundação de uma das instituições mais duradouras da história moderna.
Veredito Final: Vale a Pena Ler A Constituição de Anderson (1723)?
Sim, vale a pena ler, mas com a ressalva de que esta não é uma leitura de entretenimento. É uma leitura de estudo.
Para maçons, historiadores e qualquer pessoa interessada nas raízes da sociedade moderna e dos ideais iluministas, esta edição traduzida e comentada por Kennyo Ismail é a melhor porta de entrada. Ela oferece a profundidade necessária para compreender o impacto de um documento que, há 300 anos, redefiniu o conceito de fraternidade.
