No dia 24 de junho de 1717, data dedicada a São João Batista, quatro pequenas lojas de Londres se reuniram em uma taverna chamada Goose and Gridiron Alehouse. O encontro, que à primeira vista parecia trivial, deu origem a um marco histórico: a criação da primeira Grande Loja da Inglaterra. Ali, entre canecas de cerveja e conversas descontraídas, a maçonaria iniciava sua transição definitiva. A antiga ordem operativa — formada por pedreiros medievais que erguiam catedrais — começava a dar lugar à maçonaria especulativa, dedicada ao estudo simbólico, filosófico e moral da vida humana. A arte de talhar pedras se transformava na arte de lapidar consciências.
Anderson e sua Constituição
Poucos anos depois, esse movimento ganhou forma e doutrina. Em 1723, James Anderson, um pastor escocês, com apoio do cientista e maçom John Theophilus Desaguliers, publicou as Constituições da Maçonaria, documento que moldaria a identidade da fraternidade moderna. Anderson compilou tradições antigas, mitos que conectavam a maçonaria a personagens bíblicos e civilizações clássicas, além de incorporar os Antigos Deveres — manuscritos medievais que regulavam a conduta dos pedreiros. Seus regulamentos organizavam a estrutura das lojas e transformavam princípios dispersos em uma carta de valores. Ao proibir debates políticos e religiosos em Loja, o texto reafirmava a liberdade de consciência e a fraternidade universal como pilares da nova ordem.
Entretanto, nem todos aceitaram essa transformação com entusiasmo. Em 1751, um grupo de maçons irlandeses e escoceses em Londres acusou a Grande Loja de Anderson — apelidada pejorativamente de “Modernos” — de ter se afastado das práticas tradicionais. Surgia então a Grande Loja dos Antigos, que se tornaria a principal voz crítica à inovação institucional que se instalava na Inglaterra. Em 1756, Laurence Dermott, seu secretário, publicou o Ahiman Rezon, a Constituição dos Antigos. Seu texto reafirmava os rituais tradicionais, criticava fortemente as supostas inovações dos Modernos e recuperava elementos simbólicos que, segundo os Antigos, haviam sido negligenciados.
A partir daí, duas correntes ganharam contornos claros: os Modernos, mais abertos à reforma e à racionalidade iluminista, e os Antigos, defensores da continuidade ritual e da herança simbólica original. A rivalidade entre ambos atravessaria décadas, gerando práticas distintas e uma divisão institucional profunda na maçonaria inglesa.
A união de 1813
A reconciliação só ocorreria em 27 de dezembro de 1813, quando os duques de Sussex e Kent lideraram a união das duas vertentes, dando origem à Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI). Essa união não representou apenas o fim de uma disputa administrativa; ela conciliou duas visões aparentemente opostas. Da síntese entre tradição e inovação, nasceu uma instituição mais sólida, estruturada e influente, que serviria de referência para o mundo maçônico nos séculos seguintes.
A história da maçonaria moderna é, portanto, uma narrativa de encontros e desencontros. De uma simples reunião em uma taverna londrina surgiram os alicerces de uma fraternidade universal. As Constituições de Anderson deram-lhe filosofia; a disputa entre Modernos e Antigos aprofundou seu caráter simbólico; e a união de 1813 consolidou sua estrutura definitiva. Assim, de tijolos históricos e valores imateriais, ergueu-se uma tradição que não constrói apenas templos, mas homens e sociedades mais justas.
Epílogo
A história da maçonaria moderna é uma narrativa de encontros e desencontros, de rupturas e reconciliações.
- 1717 trouxe a primeira Grande Loja.
- 1723 deu-lhe uma Constituição filosófica e universal.
- 1751–1756 expôs a cisão entre Modernos e Antigos.
- 1813 selou a união definitiva na GLUI.
De uma taverna londrina às Constituições que moldaram sua identidade, a maçonaria moderna nasceu como uma fraternidade que busca construir não apenas templos, mas homens melhores e sociedades mais justas.
Referências:
- Grande Loja Legal de Portugal – História
- Loja Maçônica Estrella D’Oeste – 300 anos de Maçonaria
- Grande Loja Unida do Paraná – História da Maçonaria
- Rede Colmeia – Constituição de Anderson (em português)
- Bibliot3ca – Constituição dos Antigos Ahiman Rezon
