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Mary’s Chapel E O Nascimento Da Maçonaria Especulativa

A loja escocesa que guarda os registros mais antigos da Maçonaria moderna

Poucos lugares no mundo maçônico concentram tanta importância histórica quanto a Loja de Edimburgo Mary’s Chapel nº 1. Mais do que ostentar o título de loja mais antiga ainda em atividade, ela ocupa um ponto decisivo na transformação da Maçonaria: foi ali, entre atas, estatutos e admissões inéditas, que a antiga fraternidade de pedreiros começou a deixar de ser apenas um ofício para se tornar uma tradição simbólica, filosófica e iniciática.

Ao revisitar a trajetória da Mary’s Chapel, revisitamos também o momento em que a Maçonaria atravessou uma fronteira histórica — a passagem da Maçonaria operativa para a Maçonaria especulativa.

Antes da loja, a guilda

Para compreender a importância da Mary’s Chapel, é necessário recuar ao início do século XVI, quando a Maçonaria ainda estava profundamente ligada às corporações de ofício. Em 31 de dezembro de 1504, foi fundada em Edimburgo a corporação de pedreiros e carpinteiros responsável pela construção da Capela de Santa Maria (St. Mary’s Chapel). No dia seguinte, 1º de janeiro de 1505, o rei James IV da Escócia concedeu carta de confirmação a essa corporação.

Esse documento não institui uma loja maçônica nos moldes modernos. Trata-se de uma carta de guilda, que regulamentava direitos, deveres e privilégios dos artesãos. Ainda assim, ele comprova que pedreiros organizados se reuniam regularmente naquele espaço desde o início do século XVI — o terreno histórico sobre o qual a loja Mary’s Chapel seria estruturada.

A ata que mudou tudo

O verdadeiro marco da Mary’s Chapel surge em 31 de julho de 1599, data da ata de reunião maçônica mais antiga conhecida no mundo ainda associada a uma loja em funcionamento. Esse documento não é apenas antigo: ele inaugura uma nova mentalidade institucional, baseada no registro escrito, na continuidade administrativa e na memória histórica.

Embora exista uma ata ligeiramente anterior, de janeiro de 1599, pertencente à Loja de Aitchison’s Haven, essa loja encerrou suas atividades em 1852. Por esse motivo, a Mary’s Chapel é reconhecida como a loja maçônica mais antiga ainda em atividade contínua.

A disputa pela antiguidade, especialmente com a Loja de Kilwinning, revela algo essencial da tradição escocesa: a precedência não se sustenta apenas em narrativas lendárias, mas na comprovação documental. Foi esse critério que manteve a Mary’s Chapel como Loja nº 1.

William Shaw e o nascimento da Maçonaria registrada

O nome de William Shaw, Mestre de Obras do rei James VI da Escócia, é inseparável da história da Mary’s Chapel. Em 1598 e 1599, Shaw promulgou estatutos que reorganizaram profundamente as lojas operativas escocesas.

Nos chamados Estatutos de Shaw, a Loja de Edimburgo Mary’s Chapel é citada nominalmente e reconhecida como loja chefe, com precedência sobre as demais. Mais importante ainda: Shaw determinou que as lojas passassem a lavrar atas de suas reuniões.

Essa decisão, aparentemente administrativa, teve consequências históricas profundas. A partir dela, a Maçonaria passa a produzir memória escrita regular, permitindo que historiadores acompanhem, passo a passo, sua evolução institucional.

Quando os não-pedreiros entram em cena

Se a ata de 1599 marca o nascimento da Maçonaria registrada, o ano de 1641 marca uma virada ainda mais decisiva. Durante a ocupação escocesa da cidade inglesa de Newcastle, a Loja Mary’s Chapel reuniu-se fora da Escócia e admitiu dois homens que não eram pedreiros: Alexander Hamilton e Robert Moray.

Essas admissões são os registros mais antigos conhecidos de maçons especulativos — homens aceitos não por exercerem o ofício da construção, mas por seu valor intelectual, social ou moral.

O fato de essa reunião ter ocorrido em solo inglês confere ainda outro peso histórico: trata-se da mais antiga reunião maçônica documentada realizada na Inglaterra.

Ciência, filosofia e novos horizontes

Poucos anos depois, em 1646, outro nome emblemático surge nos registros maçônicos: Elias Ashmole. Militar, alquimista, antiquário e astrônomo, Ashmole representa um novo perfil de maçom — profundamente interessado em ciência, simbolismo e filosofia.

Ashmole e Robert Moray viriam a integrar a fundação da Royal Society, aproximando definitivamente a Maçonaria dos círculos intelectuais que moldariam o pensamento moderno. A Maçonaria deixava de ser apenas herdeira das obras em pedra e passava a dialogar com as obras do espírito.

Da pedra bruta ao homem interior

A transição da Maçonaria operativa para a especulativa não ocorreu de forma abrupta. Durante décadas, lojas como a Mary’s Chapel abrigaram, lado a lado, pedreiros de ofício e homens alheios à construção. Ferramentas antes utilizadas no trabalho manual passaram a ser reinterpretadas como símbolos morais. A edificação material deu lugar à ideia de aperfeiçoamento interior.

Os Estatutos de Shaw, as primeiras atas e as admissões de maçons aceitos indicam que essa transição foi gradual, orgânica e profundamente ligada ao contexto social, político e intelectual da Escócia e da Inglaterra dos séculos XVI e XVII.

Um laboratório da Maçonaria moderna

Mais do que um relicário histórico, a Loja Mary’s Chapel nº 1 pode ser entendida como um verdadeiro laboratório da Maçonaria moderna. Ali convivem documentos operativos, normas morais, registros administrativos e os primeiros passos de uma fraternidade iniciática que, no século seguinte, daria origem às grandes lojas e ao modelo especulativo plenamente desenvolvido.

Sua importância, portanto, não reside apenas em ser a mais antiga em atividade, mas em ter sido testemunha — e protagonista — de uma das maiores transformações da história maçônica.

Herança viva

Ao atravessar mais de quatro séculos de existência documentada, a Mary’s Chapel permanece como símbolo de continuidade, adaptação e memória. Em suas atas não está apenas registrada a história de uma loja, mas o momento em que a Maçonaria começou a olhar para além da pedra, reconhecendo no homem o seu verdadeiro templo.

Entender a Mary’s Chapel é, em última instância, compreender o nascimento da Maçonaria especulativa e o espírito que ainda hoje sustenta a Ordem.

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