Quando Raul Seixas canta “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”, não está apenas repetindo um refrão chamativo. Está abrindo uma porta para uma tradição esotérica inteira — uma tradição que nomeia a vontade autêntica do indivíduo como princípio criador e moral. Essa tradição tem um nome: Thelema. E o texto-clave que a expressa, o Liber AL vel Legis (O Livro da Lei), foi o ponto de encontro intelectual e simbólico entre Raul, Paulo Coelho e um recorte da contracultura brasileira dos anos 1970.
O que havia de tão subversivo na proposta? Por trás da aparente anarquia da frase “faz o que tu queres” está uma filosofia muito precisa: a busca e a execução da True Will — a vontade profunda, o chamado existencial que alinha o indivíduo ao seu centro mais autêntico. Em Crowley, esse imperativo não significa hedonismo indiscriminado; significa descobrir e cumprir a própria órbita espiritual — o que ele chama de “True Will” — e nada mais que isso. A máxima aparecia no Livro da Lei como preceito central: “Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
Raul, Paulo e a fecundidade simbólica da junção
A parceria entre Raul Seixas e Paulo Coelho (músicas, textos e experimentos sociais) tomou emprestado desse quadro simbólico elementos que funcionavam como catalisadores para uma juventude ávida por propósito. A “Sociedade Alternativa” proposta — mais utopia performática do que organização formal duradoura — tentou traduzir, ao modo brasileiro, os axiomas da Thelema: autonomia, responsabilização individual e ruptura com normas que aprisionavam o espírito. O próprio ato de registrar em cartório, segundo depoimentos posteriores, foi uma tentativa de legitimar a proposta frente a possíveis mal-entendidos.
Tanto na letra de “Sociedade Alternativa” quanto em outras canções — como “A Lei” — vemos citações ou paráfrases diretas de versos de Liber OZ e do Libro da Lei: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, “Faze o que tu queres há de ser tudo da lei”. Essas frases funcionam como sigilos musicais: condensam ideias esotéricas em versos que entram no corpo social através do canto. Transformam preceito arcano em refrão coletivo.
Entre rito e performance: o caráter iniciático da canção
Do ponto de vista esotérico, uma canção que repete um axioma mágico age como um pequeno rito popular. O refrão repetido é uma invocação de símbolos; a plateia, ao cantar junto, participa de uma liturgia laica. O que diferencia um rito mágico de um mero slogan é a intenção e a preparação interior. Crowley insistia que “Do what thou wilt” implicava disciplina, conhecimento de si e responsabilidade — não o caos moral. Interpretada nesse sentido, a “Sociedade Alternativa” pode ser lida como proposta de iniciação pública: um convite a descobrir e executar a própria lei interior, mas também um aviso sobre as consequências morais dessa descoberta.
O perigo da simplificação: malentendidos e perseguição
A tradução popular e o apelo de fácil compreensão tornaram as ideias de Raul e Paulo potencialmente explosivas em um Brasil sob ditadura. A militarização reagiu: a música e o projeto foram interpretados como subversivos; Paulo Coelho chegou a ser preso e torturado em episódios que envolvem acusações que mesclavam política e moral cultural. A repercussão mostrou que um símbolo esotérico, quando transportado ao espaço público, encontra camadas de recepção que vão do entusiástico ao punitivo.
Thelema em contexto: o significado ritual e ético da “Lei”
Para entender a profundidade dessa influência é preciso olhar para os textos originais. O Livro da Lei, canalizado por Crowley em 1904, é um texto poético e enigmático que articula a mudança de era (o Aeon de Horus) e formula lemas que reconfiguram ética e identidade. Em Liber AL encontramos tanto frases lapidares quanto imagens simbólicas que exigem estudo e interpretação. Em Thelema, portanto, a “lei” é um princípio cósmico e ético que exige conhecimento, e não apenas permissividade. Quem proclama “faz o que tu queres” sem buscar o “queres” genuíno corre o risco de confundir vontade superficial com destino interior.
Leituras esotéricas possíveis para o ouvinte moderno
- A canção como evocar do Self verdadeiro. A música funciona como um chamado para que cada um questione quais condicionamentos limitam sua vontade autêntica.
- A letra como mapa alquímico. Termos como “todo homem e toda mulher é uma estrela” podem ser lidos simbolicamente: cada ser tem um centro luminoso a ser realizado, uma estrela íntima que deve ser trazida à manifestação.
- Performance comunitária como ritual laico. O refrão cantado em coro cria coesão, oferecendo uma experiência iniciática coletiva que, sem aparato sacerdotal, reproduz dimensões do rito.
- Advertência ética. Em Crowley, e em leituras responsáveis, a liberdade sem responsabilidade é autodestrutiva. A “Sociedade Alternativa” enfatiza tanto o direito quanto o dever: vocação e consequência.
Fontes, evidências e leitura crítica
Para sustentar historicamente e conceitualmente essa interpretação, destaco algumas fontes acessíveis e essenciais:
- The Book of the Law (Liber AL vel Legis) — texto central de Aleister Crowley, disponível em traduções e no acervo digital do Sacred Texts. Fundamental para entender o axioma “Do what thou wilt”.Internet Sacred Text Archive+1
- Entradas sobre Thelema e Liber OZ (visão geral histórica) — artigo consolidado na Wikipédia e bibliografias sobre Crowley; útil para referências rápidas.Wikipedia+1
- Depoimentos e registros sobre a “Sociedade Alternativa” no Brasil — entrevistas, registros e notas de Paulo Coelho (incluindo relato em depoimentos oficiais e biográficos sobre o episódio com a ditadura). Um documento de referência é o registro do próprio depoimento e reportagens históricas que narram prisões e perseguições políticas.Senado+1
- Documentos, textos e páginas de fã-clube/arqueologia cultural (contextualizam as letras e a recepção popular), que ajudam a mapear como os versos de Raul incorporaram elementos do Liber OZ.Raul Seixas Oficial Fã-Clube+1
Um provisório veredito esotérico
Ler “Sociedade Alternativa” com olhos de esoterista é enxergar um gesto de tradução mágica: uma tradição minoritária (a Thelema) foi derramada, por meio do rock e da poesia popular, no corpo coletivo de uma juventude provocada. Do ponto de vista mágico, isso é ritual — a consagração pública de um lema. Do ponto de vista moral, é um teste: a sociedade é capaz de internalizar a liberdade sem perder o senso de responsabilidade?
A resposta é ambivalente. A canção permaneceu e ressoa; os mal-entendidos e a repressão também mostraram os perigos de deslocar símbolos ocultos para o espaço público sem formação. Mas talvez aí resida a sua grande potência: forçar a pergunta que todo caminho iniciático levanta — será que estou disposto a descobrir o que realmente quero e a arcar com as consequências?
Leituras recomendadas (para aprofundar)
- Aleister Crowley — The Book of the Law (Liber AL vel Legis). Texto original; procure edições comentadas para leitura guiada.Internet Sacred Text Archive+1
- Obras sobre Thelema e sua história: verbetes e compilações em bibliotecas esotéricas e estudos acadêmicos.Wikipedia
- Entrevistas e depoimentos sobre Raul Seixas & Paulo Coelho: reportagens de época e bios que documentam a interação com a ditadura e o contexto cultural.
