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Resenha de Ahiman Rezon – A Constituição dos Maçons Antigos: Uma Análise Profunda

“Ahiman Rezon: A Constituição dos Maçons Antigos”, compilado por Laurence Dermott e publicado originalmente em 1756, é um dos documentos mais fundamentais para compreender a Maçonaria do século XVIII e os desdobramentos que levariam ao surgimento da estrutura moderna da Ordem. Embora seja conhecido principalmente como um texto constitucional, Ahiman Rezon ultrapassa a barreira do jurídico e do administrativo: ele é, ao mesmo tempo, um tratado histórico, um manifesto político, uma defesa ritualística e uma obra marcada por uma ironia afiada que o torna único dentro da literatura maçônica. Dermott, que foi Grande Secretário e uma das mentes mais brilhantes da Grande Loja dos Antigos, utiliza o livro para definir a identidade da sua obediência e, sobretudo, para se contrapor aos Modernos, estabelecendo as bases de uma das maiores disputas internas da história da Maçonaria.

Ficha Técnica e Dados Essenciais

“Ahiman Rezon” foi originalmente publicado em 1756 e recebeu diversas revisões posteriores. Seu autor, Laurence Dermott, irlandês e maçom altamente influente, tornou-se o principal articulador intelectual da Grande Loja dos Antigos. A obra pertence ao gênero das constituições maçônicas, mas se destaca pela presença de elementos literários, satíricos e históricos que fogem completamente ao estilo mais austero da Constituição de Anderson, publicada algumas décadas antes. Trata-se de um documento essencial para os estudos da história maçônica, do esoterismo e da ritualística tradicional.

A Trama: O Que Você Precisa Saber Antes de Ler

Embora Ahiman Rezon não apresente uma narrativa no sentido clássico, ele se desenvolve como um texto que busca justificar a existência de uma nova obediência — a Grande Loja dos Antigos — em oposição à Grande Loja de Londres, fundada em 1717. Dermott apresenta argumentos históricos e ritualísticos para demonstrar que os Modernos haviam se afastado da “verdadeira” tradição maçônica. Em vez de simplesmente reproduzir um código de regras, ele constrói uma espécie de narrativa institucional, explicando como, por que e em que contexto a nova organização surgiu. Assim, o leitor acompanha não uma história fictícia, mas uma história institucional carregada de tensões, ironias e reivindicações.

O Conflito Central: A Legitimidade da Tradição Maçônica

O conflito fundamental de Ahiman Rezon é a disputa pela legitimidade da Maçonaria. Dermott acusa os Modernos de terem alterado rituais, símbolos e palavras sagradas, transformando a Maçonaria em algo mais racionalizado e menos conectado às tradições ancestrais. Para os Antigos, que Dermott representa magistralmente, a preservação dos rituais originais era uma questão de identidade e de fidelidade ao passado. É nesse cenário que Ahiman Rezon surge: como uma constituição, sim, mas também como um manifesto que defende a pureza dos rituais tradicionais. Dermott, com sua escrita vigorosa e intelectualizada, apresenta a Grande Loja dos Antigos como a verdadeira guardiã da tradição, acusando os Modernos de terem se desviado do caminho.

Análise de Conceitos: A Estrutura e a Filosofia dos Antigos

A obra apresenta conceitos fundamentais para a compreensão da Maçonaria setecentista e das diferenças entre as duas grandes tendências da época. O próprio título, Ahiman Rezon, é enigmático e deliberadamente construído para soar misterioso. Traduzido de forma ampla como “Irmão do Segredo” ou “Preparação do Irmão”, o nome reforça o caráter iniciático e simbólico da obra. Dermott estabelece uma série de regras, deveres e instruções para as lojas da sua obediência, mas faz isso com uma ironia que, em alguns momentos, beira a sátira. Essa característica torna o texto mais vivo, mais humano e mais acessível do que a rigidez normativa tradicional. Ao mesmo tempo, o livro contém instruções claras sobre regularidade, hierarquia, funções dos oficiais e preservação ritualística. A defesa dos rituais antigos — sobretudo sinais, palavras e cerimônias que, segundo os Antigos, haviam sido modificados pelos Modernos — constitui o cerne conceitual da obra.

Estilo e Narrativa: A Voz Irônica de Dermott

Laurence Dermott escreve com uma mescla de seriedade institucional e humor refinado. Ao contrário de Anderson, que adota um estilo mais filosófico e distanciado, Dermott utiliza a sátira como arma retórica. Ele critica os Modernos sem nunca fugir da elegância literária, construindo um texto que, ao mesmo tempo, diverte e instrui. Seu estilo direto — por vezes espirituoso — reforça a identidade dos Antigos como guardiões de uma tradição viva, e não apenas como seguidores de normas burocráticas. A narrativa flui como uma conversa inteligente e bem-humorada, mesmo quando se trata de regras ou de registros históricos.

Temas e Mensagens: O Significado Profundo da Obra

O núcleo temático de Ahiman Rezon gira em torno da preservação da tradição e da verdadeira essência da Maçonaria. Dermott defende que a Maçonaria não é apenas um conjunto de cerimônias formais, mas um sistema filosófico transmitido oralmente e cuidadosamente guardado ao longo do tempo. A disputa entre Antigos e Modernos se torna, portanto, a disputa entre dois modelos de mundo: um que valoriza a continuidade ritual e outro que busca atualizar e racionalizar a tradição. A obra também aborda temas como fraternidade, regularidade e respeito aos landmarkes, reforçando a ideia de que a Maçonaria só existe plenamente quando se mantém fiel às suas raízes. Para além da disputa histórica, o livro apresenta uma visão profunda sobre o papel da Ordem na formação moral e espiritual do indivíduo.

Crítica Pessoal e O Final (Alerta de Spoilers!)

AVISO DE SPOILER: A partir deste ponto, a resenha contém detalhes sobre a conclusão da obra.

Minha leitura pessoal de Ahiman Rezon é que ele funciona como uma peça híbrida, que une o humor literário ao rigor institucional. Ao mesmo tempo em que estabelece regras e princípios, Dermott faz críticas afiadas e bem colocadas, transformando a obra em algo muito mais humano do que se poderia esperar de um texto constitucional. Por outro lado, o caráter extremamente contextualizado da obra faz com que o leitor moderno precise de algum conhecimento sobre a história da Maçonaria para captar a profundidade e a sutileza das críticas. Ainda assim, o ponto final do livro — a afirmação clara da legitimidade dos Antigos — é extremamente poderoso, especialmente quando lembramos que, historicamente, a visão dos Antigos acabou prevalecendo após a união de 1813 que formou a Grande Loja Unida da Inglaterra.

Veredito Final: Vale a Pena Ler Ahiman Rezon?

Sim, vale muito a pena ler Ahiman Rezon. Trata-se de um documento imprescindível para quem deseja compreender a história da Maçonaria, as disputas internas que moldaram sua estrutura atual e a evolução dos rituais maçônicos. É uma obra rica, inteligente, provocativa e, acima de tudo, profundamente reveladora do espírito da Maçonaria tradicional. Leitores interessados em esoterismo, história, filosofia maçônica e rituais iniciáticos encontrarão em Ahiman Rezon não apenas um texto normativo, mas uma verdadeira janela para o pensamento maçônico do século XVIII.

Capa do Livro

Ahiman Rezon A Constituição Dos Maçons Antigos

Autor: Laurence Dermott

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